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Quando usamos as armas do inimigo

Posted: maio 14th, 2009 | Author: coredump | Filed under: Cybermundo | Tags: , ,

Eu tenho ficado longe de assuntos de software livre atualmente, mais por me focar em outras áreas e tal e principalmente para me manter fora de política.

Então foi com alguma tristeza que eu notei que para alguns “luminares” do software livre no Brasil, pimenta nos olhos dos outros é realmente refresco. Digo isso porque com alguma surpresa notei que esses “luminares” resolveram usar as mesmas estratégias que eles condenam a anos na luta contra as grandes empresas do software proprietário. De repente, eu vi as pessoas usando FUD (medo-incerteza-dúvida, em inglês).

Porque eu digo isso? Porque se você observar toda a “campanha” contra o PL do Senador Azeredo, você vai ver que eles usam pedaços de informação, distorcendo o contexto. Além disso exageram em coisas como chamar o projeto de “AI 5 Digital”, o que para qualquer pessoa que realmente leia o que foi o AI-5 chega a insultar a inteligência. Exemplos? Ta ái:

  • “Projeto do Senador Azeredo vai inviabilizar redes abertas”
    Como assim? O que são redes abertas? São redes de colaboração entre pessoas como projetos de software livre (o que eles querem que você pense) ou redes wireless (hot-spots) que funcionam sem necessidade de cadastro/autenticação (o que a lei realmente quer evitar)? Porque nesse caso, é até uma coisa constitucional, por mais que se concorde ou não, anonimato é proibido no Brasil. E de mais a mais, qual seria o problema de se exigir um cadastro para utilização de hot-spots, visto que até para comprar celular pré-pago você precisa apresentar seus documentos. Como eu disse, FUD.
  • “Projeto vai acabar com telecentros”
    Oi? Como? Ainda com a idéia aí de cima sobre redes abertas?
  • “Transferir  arquivos vai ser crime, acabando com as redes P2P”
    Realmente, o projeto tem uma parte sobre cópia de arquivos, mas fala de copiar arquivos “sem a permissão do dono”. O pessoal do FUD diz que isso vai acabar com qualquer cópia de arquivo, enquanto na verdade é uma coisa meio óbvia com relação a copyright. Arquivos cujo copyright proíbem a cópia realmente não deviam ser copiados. Mas e arquivos, por exemplo, licenciados livremente via GPL, LGPL ou Creative Commons? Eles já tem, intrinsicamente, a permissão de cópia. Mas o FUD tem de ser feito.
  • “Pequenos provedores e telecentros vão ser afetados pela guarda de logs”
    Como eu ja disse em um post anterior, o gasto para se manter um tamanho razoável de registros de acesso em redes não é nada exorbitante como o FUD pretende dizer. Claro, vai ter um gasto, mas nada que vá quebrar um provedor ou um telecentro.
  • “Projeto transforma provedor em polícia/xerife”
    Essa dá nos nervos. O que está escrito na lei e que um provedor tem de avisar para as autoridades caso seja informado de um crime. Nada sobre o provedor ter de vigiar o que acontece de todo mundo na sua rede para depois prender e processar alguém. Mas FUD tem de se basear em falácias do tipo. Qualquer pessoa a ser informada de um crime faz por bem comunicá-lo a polícia/autoridades, porque um provedor seria diferente?
  • “Projeto penaliza todo mundo menos os criminosos”
    Do jeito que a galera do FUD explica, parece que o PL foi feito para atingir o usuário normal do dia a dia de internet, enquanto os verdadeiros megahackers nunca vão ser atingidos. O fato é que o PL serve para tipificar crimes, o que não existe na legislação brasileira. Ou seja, mesmo quando um “mega hacker” é preso não existe a modalidade de crime para enquadrá-lo e acabam tendo de fazer uma gambiarra legal facilmente desqualificada por advogados. Lembra que até pouco tempo atrás a posse de pedofilia não era crime? Então, atualmente fazer um vírus ou cavalo de tróia também não. Nem roubar senha de bancos via internet (usar a senha roubada sim, é crime. Roubar e não usar, não).

Eu sei que com isso eu vou contra a corrente libertária do pessoal open-source, free software, etc… e mesmo de diversos amigos que provavelmente vão parar de falar comigo =). Mas do meu ponto de vista de profissional de segurança/entusiasta de software livre é muito triste essa disputa virar um palanque para afirmações exageradas para colocar o medo-incerteza-dúvida (FUD) em pessoas que nem ao menos tentaram ler o texto da lei sendo discutida, acabando por criar uma massa de desinformados gritando contra uma coisa que não conhece. Peraí, não era a Microsoft que fazia isso?

Como diz um amigo que trabalha comigo “Comunidade é legal mas sempre tem showman querendo aparecer”.

Afinal de contas, nada gera mais publicidade do que se colocar como um paladino lutando pela liberdade, por mais que as vezes a luta seja na verdade por libertinagem.

intel

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2 Comments »

2 Comments on “Quando usamos as armas do inimigo”

  1. 1 ML said at 17:54 on maio 15th, 2009:

    acho que à parte a onda AI5, vale a pena prestar atenção no que pode estar por trás dessa proposta sim… e, fica tranquilo, do outro lado chamam todo mundo que é contra ela de defensor de pedófilo, é tiro de cego pra todo lado! indico um artigo de um amigo sobre isso:

    http://webinsider.uol.com.br/index.php/2009/03/09/um-modelo-do-mal-deseja-contaminar-a-internet/

  2. 2 Fábio Emilio Costa said at 19:30 on julho 10th, 2009:

    Eu apenas acho que essa legislação como está escrita ela NÃO DEIXA CLARO uma série de questões. Entendo e aprovo a importância de se ter uma lei para Internet, mas o que se tem que entender é que a Internet precisa de uma lei ESPECÍFICA. Não adianta criar uma lei ampla demais que pode acabar respingando em atitudes legítimas.


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